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Se há algumas décadas o planejamento de sustentabilidade empresarial era um alerta para os riscos do futuro e uma oportunidade para empresas que olhassem para o tema despontarem no mercado como inovadoras e responsáveis, hoje já não é opcional. Gestores de negócios devem estar atentos a conceitos e ferramentas que tragam compreensão sobre seu impacto e sobre as ameaças a que estão expostos. Além disso, é preciso se posicionar em espaços de articulação para acompanhar tendências e reformular constantemente sua atuação de acordo com os desafios deste século. É isso ou ficar para trás – o que agora pode não significar apenas perder mercado, mas deixar de existir.

Desafios relacionados a pressões sobre recursos naturais, riscos ambientais e interação com os mais diversos stakeholders exigem do setor empresarial uma atuação inovadora diante de um cenário de incertezas, ao mesmo tempo em que abrem oportunidades para uma atuação que impulsione a sustentabilidade.

Em 2018, o criador do conceito do triple bottom line, John Elkington, revisou sua própria criação após constatar que, apesar de ser um norte para guiar ações de sustentabilidade, o chamado “tripé da sustentabilidade” não foi o suficiente para mudar a métrica. Ele reconhece que não basta verificar o sucesso apenas por lucro e perda, mas pelo bem-estar das pessoas e pela saúde do planeta. Elkington reconhece avanços, mas é taxativo: falta radicalidade para que não ultrapassemos os limites planetários.

A crítica do autor é bem-vinda em um momento em que é essencial um papel de destaque do setor empresarial na agenda socioambiental. A conjuntura é de tensões políticas em todo o mundo, com o avanço do pensamento nacionalista e de governos populistas, impulsionando uma crise no multilateralismo e relegando a agenda de sustentabilidade a segundo plano. Isso ocorre justamente em um momento em que é crucial acelerar a mudança rumo a uma economia de baixo carbono e atenta ao uso responsável de recursos, além da necessidade de promover o bem-estar da sociedade, contribuindo para populações mais resilientes.

No FGVces, acreditamos que para tornar a gestão da sustentabilidade mais robusta é necessário qualificar o debate, por meio de conhecimento aplicado, espaços de diálogo e visão de futuro. As decisões não podem estar pautadas apenas no passado ou no presente, mas, sobretudo, em como o mundo precisa ser. Desde nossa fundação, em 2003, é na visão de futuro que pautamos nossas atividades com foco nos negócios, inovando também na forma de criar novos modelos de gestão.

Entramos agora no décimo ano de atuação das Iniciativas Empresariais (iE), uma rede de empresas que busca fomentar o debate sobre gestão da sustentabilidade a partir do compartilhamento de conhecimento acadêmico e prático e criação coletiva. Ao longo dos ciclos anuais, pesquisadores do FGVces e especialistas convidados conduzem oficinas de aprofundamento em temas de fronteira no debate de sustentabilidade nos negócios e, junto com as empresas, a rede desenvolve e aplica ferramentas e métodos de aprimoramento da gestão, com foco na realidade empresarial. Os temas trabalhados no âmbito das iE são discutidos também em outras redes nas quais o FGVces atua, como forma de expandir o debate e trazer para a atuação do grupo o que há de mais avançado na agenda.

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Atualmente, são cinco as iniciativas:

Empresas pelo Clima (EPC), que desde 2009 articula lideranças empresariais para a gestão e redução de emissões de gases de efeito estufa e avaliação de risco climático, além de qualificar sua participação em discussões sobre políticas e marco regulatório no tema;

Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE), atuante na difusão de métodos e ferramentas para que as empresas levem em conta o capital natural em sua tomada de decisão. Em 2018, além de desenvolver atividades de disseminação de conhecimento, a TeSE publicou dez novos casos de valoração econômica de serviços ecossistêmicos das empresas membro da iniciativa no ciclo 2017 e o caso empresarial de valoração não-econômica de Serviços Ecossistêmicos Culturais. Também publicou o relatório “Explorando conexões entre finanças corporativas e serviços ecossistêmicos: Estudos pilotos”, com o objetivo de apresentar elementos para que tomadores de decisão do setor produtivo e financeiro possam considerar formal e explicitamente os riscos associados aos recursos naturais e serviços ecossistêmicos em processos de identificação, análise e avaliação de riscos.

Em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ), realizamos também, por meio da TeSE, chamada de casos sobre gestão empresarial do capital natural. A intenção era identificar empresas no País que estão considerando o capital natural em suas tomadas de decisão e que práticas estão utilizando. Os casos foram publicados em especial multimídia P22_ON, da Revista Página22. A chamada contou ainda com o apoio da Fundação Grupo Boticário.

Ciclo de Vida Aplicado (CiViA), que por meio da difusão do pensamento de ciclo de vida e do método da Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) auxilia empresas a mapear, calcular e gerir seu impacto ambiental. Em 2018, foram oferecidas às empresas capacitações em ACV e em pegada de carbono e pegada hídrica; oficina sobre a relação entre ciclo de vida e valoração dos serviços ecossistêmicos; relação entre precificação e pegada de carbono; e oficina sobre transição das categorias únicas de análise para estudos com múltiplas categorias de impacto ambiental.

Em julho de 2018, estivemos no encontro latino-americano sobre gestão de água na Cidade do México (II Encuentro de la Comunidad de práctica de América Latina sobre huella de agua y gestión corporativa del agua na Cidade do México). O evento teve como objetivo fortalecer as capacidades de profissionais da região e avançar na avaliação dos impactos ambientais dos processos produtivos na água. O intercâmbio de experiências entre os participantes facilitou compreender como a aplicação do método de Pegada Hídrica (ISO 14046) está ocorrendo na América Latina. A equipe de CiViA esteve também na 6ª edição do Congresso Brasileiro sobre Gestão do Ciclo de Vida, o GCV 2018, discutindo a aplicação da ACV na gestão empresarial.

Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local) tem o propósito de articular o setor empresarial para reflexão, troca de experiências e construção de propostas e diretrizes empresariais para desenvolvimento local, por meio da criação compartilhada de metodologias e ferramentas. Em 2018, ID Local trabalhou com o tema de interação entre setor privado e políticas públicas. Para isso, foram realizadas oficinas sobre o papel e as responsabilidades empresariais, políticas públicas, desenvolvimento local e licenciamento ambiental.

Uma chamada de casos selecionou 15 exemplos de parcerias entre setor empresarial e gestão pública em prol do desenvolvimento local, apresentadas em um encontro sobre estratégias empresariais de articulação e alinhamento às políticas públicas. O relato dos casos será publicado em breve. Em integração temática com EPC, realizamos oficina sobre adaptação à mudança do clima e desenvolvimento local. Além disso, foi lançada a publicação “Um Olhar Territorial sobre Investimento Social Corporativo: Princípios e Diretrizes”, referente ao ciclo de trabalho 2017.

Lançamento da publicação “Um Olhar Territorial sobre Investimento Social Corporativo: Princípios e Diretrizes”

Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV) desenvolve métodos e ferramentas para a integração da sustentabilidade nos processos e nas políticas de compras das empresas, por meio do desenvolvimento de protocolos para a gestão da cadeia de fornecedores. Em 2018, por meio de quatro encontros das empresas participantes, os trabalhos de ISCV consistiram na finalização de um guia prático para implementação da norma ISO 20400 – de compras sustentáveis – e na produção de um protocolo técnico para apoiar grandes empresas no desenvolvimento de seus fornecedores. Os documentos serão lançados em 2019.

AGENDA INTEGRADA: FOCO EM DESAFIOS REAIS DAS EMPRESAS

Além das oficinas de formação e capacitações técnicas em cada uma das iE, há alguns anos conduzimos uma agenda integrada, em que os representantes das empresas se debruçam sobre um tema relevante na atuação dos negócios de forma multidisciplinar. Em 2018 lançamos a publicação resultante da Agenda Integrada dos dois anos anteriores, que sistematiza os aprendizados e experiências estudados pelo grupo sobre Gestão Empresarial de Recursos Hídricos. A principal conclusão é que houve avanços no olhar sobre a escassez de água, impulsionada após anos de crise hídrica no país. O desafio que se coloca é a necessidade de estruturar e trabalhar sobre agendas de recursos hídricos que ultrapassem os muros da empresa e abranjam a posição da organização e suas relações com os demais atores presentes em determinado sistema socioambiental.

A publicação traz elementos para apoiar o setor empresarial na construção da gestão integrada dos recursos hídricos e, assim, na mitigação dos riscos e desenvolvimento das oportunidades. O conteúdo inclui o Mapa de Indicadores para a Gestão Empresarial de Recursos Hídricos, material interativo que permite aos gestores navegarem em uma matriz de indicadores avaliados pelo grupo como relevantes para as empresas brasileiras.

Em 2018, a Agenda Integrada se guiou pela ideia de que, ainda que seja preciso avaliar a sustentabilidade por outras métricas que não só as financeiras, é necessário alinhar as ações de sustentabilidade à tomada de decisão estratégica nas organizações. E uma das formas de aprofundar esse debate é qualificar a gestão de sustentabilidade também por meio da lógica econômico-financeira.

Ao longo do ano, as mais de 40 empresas membro das iE se debruçaram sobre o desafio de integrar os conceitos, os aprendizados e os resultados alcançados nas agendas de sustentabilidade nos processos de tomada de decisão das empresas.

A agenda foi definida pelos representantes das próprias empresas, em 2017, como a próxima fronteira para o avanço da gestão empresarial. O tema foi inserido no contexto de cada uma das iniciativas, possibilitando aos participantes aprofundar a reflexão sobre aplicação prática e abrangente das capacitações, treinamentos e ferramentas de gestão oferecidos ao longo do ciclo das iE em 2018.

O percurso desse aprofundamento começou em fevereiro, com um encontro inaugural aberto também a público externo aos membros das iE para discutir os desafios da integração entre sustentabilidade e tomada de decisão estratégica. Em abril, os representantes das empresas puderam participar de um workshop que aprofundou conceitos de finanças no contexto empresarial e apresentou também a ferramenta Guia de Aplicação do ROI Sustentabilidade (leia mais na seção Finanças), além de reunião executiva que trouxe representantes de outros setores das empresas – além da sustentabilidade – para debater o tema.

Também acreditamos que é necessário dialogar com diferentes atores envolvidos no tema para compreender aspectos que podem acelerar a transição necessária em relação à urgência requerida pelo desenvolvimento sustentável. Em agosto, realizamos a quinta edição da Jornada Empresarial Terceira Margem, que desde 2013 proporciona aos participantes uma experiência em campo para conectar teoria e prática em um ambiente novo para trazer inspiração, despertar a curiosidade e proporcionar novas relações e reflexões sobre os dilemas e soluções da sustentabilidade.

Por sua tradição e relevância para a dinâmica do sistema financeiro brasileiro, o local escolhido para essa jornada foi a cidade de São Paulo, que desde o início do século XX congrega parte significativa das principais instituições do sistema financeiro tradicional. A partir da interação com profissionais de organizações que operam no sistema financeiro nacional, foram elaboradas estratégias de comunicação sobre a relevância das agendas socioambientais para a competitividade e perenidade dos negócios. Assim foi possível entender canais para expandir a relação entre as áreas de sustentabilidade e finanças e relações com investidores e, dessa forma, impulsionar a integração dos temas da sustentabilidade nas análises e processos financeiros, base para decisões estratégicas nas empresas. Saiba mais sobre a Jornada.

Jornada Empresarial Terceira Margem

O encerramento do ciclo 2018 foi marcado por um debate qualificado sobre a necessidades de as organizações repensarem sua estrutura, formas de gestão e até mesmo o modelo de negócio, diante de um cenário cada vez mais desafiador em termos ambientais, econômicos e sociais. Na visão dos presentes no Fórum das iE, realizado em dezembro no Farol Santander, o tensionamento vem de consumidores, mercados externos e de investidores que já consideram em sua tomada de decisão aspectos da agenda da sustentabilidade das empresas. No Fórum também apresentamos o novo modelo das Iniciativas Empresariais do FGVces, uma agenda totalmente integrada, pautada em três desafios:

  • Elaborar recomendações para a incorporação de riscos, ativos e passivos socioambientais nas contas empresariais;
  • Propor um plano para engajar e articular empresas e outros atores relevantes, com atuação em um mesmo território, com vistas a contribuir para o desenvolvimento local considerando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS); e
  • Construir diretrizes para a gestão socioambiental de portfólio de produtos e serviços a partir do pensamento de ciclo de vida, observando toda a cadeia de valor

O modelo, que veio da necessidade expressa pelas próprias empresas-membro das iE ao longo dos últimos anos de integração temática, é um amadurecimento para conduzir o ciclo das iE com participação ainda maior dos representantes das empresas, a partir de desafios reais enfrentados cotidianamente. A condução do processo é inspirada nas atividades de Formação do FGVces.

ÍNDICE DE SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL

O ano de 2018 marcou o fim da relevante parceria entre a B3 e o FGVces que, nos últimos 14 anos, possibilitou a criação da metodologia e o reconhecimento do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) no Brasil e no exterior. Acordada entre a FGV e a B3 no final do ano passado, a decisão considerou a confluência de diversos fatores, decorrentes sobretudo da visível maturidade do processo do ISE sob a assessoria técnica do FGVces e de novos desafios assumidos pelo Centro. Dessa forma, desde janeiro de 2019, o ISE passou a ser conduzido diretamente pela B3.

O Brasil foi pioneiro na adoção de um índice de sustentabilidade na América do Sul e entre os países em desenvolvimento, sendo a primeira carteira ISE lançada em dezembro de 2005. Desde então, foi renovado anualmente, e está em sua 14ª carteira. A metodologia do ISE passou por atualizações anuais, buscando alinhar-se aos novos desafios da sustentabilidade que surgiram no período e em consonância com as demandas globais de investidores sobre riscos econômicos associados a sustentabilidade, contando para isso com lideranças empresariais e especialistas dispostos a compartilhar um olhar crítico e atento.

Em mais um movimento de inovação e atualização, como parte do desenvolvimento do trabalho com a B3 em 2018, realizamos em parceria com o Centro de Investimentos Sustentáveis da Universidade de Columbia (CCSI) encontros para discutir como os países emergentes estão trabalhando a agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A discussão teve como foco os temas de tecnologia, finanças e sustentabilidade, a partir das perguntas norteadoras:

  • Como medir o impacto ambiental, social, econômico e de governança das empresas?
  • Qual o papel de Big Data e da inteligência artificial para melhorar o conhecimento sobre seu desempenho ambiental, social e de governança (ESG)?
  • Que boas práticas podem contribuir para alinhar a estratégia negocial dessas empresas com os ODS (Agenda 2030)?

O projeto foi apoiado pelo programa Emerging Markets Sustainability Dialogues (EMSD), da GIZ (agência de cooperação alemã), e pela Agência Suíça para Desenvolvimento e Cooperação (SDC). Os aprendizados trouxeram novos desafios para o ISE e para o avanço da sustentabilidade empresarial, especialmente em relação a necessidade de aprimorar os critérios de análise da maturidade das empresas, em consonância com o que propõe Elkington em seu recall do triple bottom line e também a partir dos ODS. Para isso, uma das possibilidades ainda a desvendar é o uso de Inteligência Artificial para gerar e analisar dados comparáveis e robustos.

Artigos publicados em 2018:

KISS, Beatriz C.; DINATO, Ricardo; FERNANDES, Matheus. Pegada de Carbono comparativa do petrodiesel e do biodiesel com ênfase na mudança de uso da terra. Congresso Brasileiro de ACV (GCV 2018).

KISS, Beatriz C.; DINATO, Ricardo; FERNANDES, Matheus. Pegada hídrica: uso do método AWaRe na gestão empresarial de recursos hídricos. Congresso Brasileiro de ACV (GCV 2018).

KISS, Beatriz C.; DINATO, Ricardo; FERNANDES, Matheus. A influência da escolha dos fatores de caracterização para impactos de Aquecimento Global e a divisão entre metano biogênico e fóssil. Congresso Brasileiro de ACV (GCV 2018).

Veja também:

Guia para Implementação do ROI Sustentabilidade busca incentivar que gestores de sustentabilidade incorporem as técnicas de orçamento de capital como parte de suas práticas de gestão, a partir de aprendizados de casos de aplicação do ROI Sustentabilidade por organizações.

Projeto Bota na Mesa lança diretrizes públicas e empresariais para inclusão de agricultores familiares na cadeia de alimentos

FGVces participa do primeiro mapeamento brasileiro de startups atuantes no setor de tecnologias limpas