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Para boa parte dos grandes desafios ambientais e sociais que enfrentamos atualmente, já existem informações sobre sua dimensão e alguns caminhos para a busca de soluções. Boa parte delas depende de fluxo financeiro e também de mobilização de agentes públicos, privados e dos cidadãos. Mas, se as informações já estão dadas, por que a tomada de decisão não é tão rápida quanto exige a urgência para resolver questões como a mudança do clima, saneamento e o uso de recursos hídricos? No FGVces, acreditamos que isso tem a ver com os modos de fazer, que já não dão conta dos desafios do nosso tempo.

Por estar inserido numa escola de negócios, a Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), uma das linhas de atuação do FGVces é a formação. E não qualquer formação: uma que seja integrada e que, além de conteúdo, seja pensada para a transformação individual de futuros ou já experientes tomadores de decisões nos negócios, na sociedade civil e nas políticas públicas. Afinal, decisões são tomadas por pessoas, que precisam conhecer as relações de complexidade de seus modos de fazer e também devem se identificar como parte de problemas e soluções para o desenvolvimento sustentável.

Desde 2009, o FGVces coordena a disciplina Formação Integrada para a Sustentabilidade – FIS, ofertada como eletiva para a graduação da FGV EAESP. O FIS propõe um processo inovador, que busca promover as condições necessárias para fazer emergir um sujeito mais consciente de si mesmo e de sua interdependência e complexidade, e mais ativo e autônomo na sua relação consigo mesmo, com os outros e com a realidade. O que conduz isso tudo é uma mudança fundamental de paradigma: da fragmentação para a integração, com base em um modelo inter e transdisciplinar de educação, que busca integrar a razão formal, a experiencial e a sensível. Isso significa que, ao lado de dados bem tangíveis sobre a situação em que nos encontramos enquanto sociedade, é preciso lançar-se às experiências práticas e abrir-se à sensibilidade, encontrando outras formas de olhar e estar no mundo.

Inspirado também na Teoria U, desenvolvida por pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology), o FIS propõe a cada edição um desafio diferente para os alunos que ingressam na disciplina semestralmente. É o chamado Projeto Referência, que consiste em um desafio real no âmbito da sustentabilidade, que possibilita aos estudantes enxergarem-se como protagonistas em questões relevantes. Mas a entrega depende também da condução do Projeto de Si Mesmo, que propicia a eles um processo de imersão e autoconhecimento por meio de atividades reflexivas, contemplativas, artísticas e corporais.

No primeiro semestre de 2018, a 16ª turma recebeu como missão produzir e veicular uma sequência de vídeos curtos que conscientize e sensibilize para opções pessoais de investimentos financeiros responsáveis voltados para promover uma economia de baixo carbono. Por meio de conversas com especialistas em clima, finanças, comunicação e engajamento, o grupo, que se intitulou 2 Grau$, pôde compreender as relações complexas entre dinheiro e sustentabilidade, em especial mudança do clima. A entrega foi a sequência de três vídeos que deram conta de explicar, com sensibilidade, dados e humor, o papel do sistema financeiro na transição para uma economia de baixo carbono; o papel individual de pequenos e grandes investidores; e a necessidade de incluir a variável mudança do clima no cálculo de riscos e retorno, além de responsabilidade social.

Já no segundo semestre, a 17ª turma do FIS entregou uma edição especial multimídia de P22_ON, produto digital da Revista Página22, sobre os possíveis usos de blockchain para certificações socioambientais que facilitem o acesso de pequenos negócios ao mercado. Os estudantes do grupo com.fiar descomplicaram o termo numa linguagem fácil e acessível e apresentaram as complexidades das certificações e da inclusão de pequenos produtores em cadeias de valor. A pesquisa envolveu uma imersão em que os fisers se dividiram em quatro grupos para mergulhar no tema em Manaus, Uberlândia, Ilhéus e Belém.

Em 2018 também foi dada continuidade na aplicação de projeto desenvolvido por uma turma do FIS em 2016. Mais de 400 estudantes da FGV em São Paulo participaram de rodadas do jogo Sala de Reunião, produto do FIS 13, que agora é uma atividade obrigatória para as turmas ingressantes na graduação na FGV EAESP. O jogo estimula a discussão sobre vieses inconscientes que interferem na distribuição de oportunidades a homens e mulheres nas organizações, promovendo debate sobre equidade. Sala de Reunião também fez parte da programação da Virada Sustentável em São Paulo.

FIS 17 – Manaus

Já somos uma comunidade

O FIS já está em sua 18ª edição e pela disciplina já passaram mais de 250 alunos, alguns deles formados no início da década e já em plena atuação em posições de tomada de decisão no setor privado, público ou em organizações da sociedade civil. Ao fim de cada semestre, uma pergunta recorrente é “e agora?”. Isso porque, fora desse ambiente de formação, é um desafio manter-se atento aos modos de fazer que levem em conta a necessidade de um olhar complexo e integrado. O desafio também era percebido pelo FGVces e, por isso, em 2018 facilitamos a aproximação de alunos de todas as edições do FIS realizadas até então por meio da constituição de uma comunidade de prática. É uma forma de manter vivo e expandir o processo de formação integrada, construir coletivamente novos saberes e práticas, criar um campo para emergência de projetos coletivos, tudo por meio de uma perspectiva transdisciplinar e no contexto dos desafios do desenvolvimento sustentável.

Tivemos três encontros da comunidade, com média de 60 participantes cada. A partir de agosto organizamos também reuniões semanais com alunos que hoje integram a comunidade, para criar com eles como seriam os encontros, buscando dar autonomia para que o grupo se organize de acordo com suas demandas e inquietações.

Encontro Comunidade FIS

Fora da sala de aula

Além do FIS, o programa de Formação do FGVces conduziu em 2018 disciplinas de imersão para mais alunos da FGV, expandindo essa nova forma de pensar a sustentabilidade para um grupo maior. As disciplinas foram ofertadas durante as semanas de imersão da FGV para aproximadamente 100 alunos.

Por meio de visitas na cidade de São Paulo e no interior paulista, a disciplina O Negócio da Água teve como objetivo oferecer uma experiência de aprendizagem integrada para possibilitar a compreensão da água como condição fundamental para a vida, a importância da qualidade e da quantidade, bem como causas e impactos sistêmicos, locais e globais, das atuações e decisões das organizações e dos indivíduos. A disciplina se inspira em um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODS 6 – “Água potável e saneamento”, que busca assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos.

O percurso de aprendizagem foi conduzido por meio do contato direto com a realidade fora da sala de aula – não só com a natureza, mas com práticas institucionais e diferentes atores. A missão era criar condições de reflexão sobre a nossa relação com a água, como a percebemos e, consequentemente, sobre a relação dos negócios com esse elemento. Como entrega final, os alunos criaram coletivamente uma exposição fotográfica na FGV sobre a relação com a água.

Em Sustentabilidade em Campo, um grupo de 25 alunos viajou à porção paulista da região do Vale do Ribeira, território considerado patrimônio natural, socioambiental e cultural da humanidade. O Vale combina história, tradição, riquezas e questões fundiárias que revelam interesses conflitantes e visões paradoxais sobre o significado de desenvolvimento socioeconômico. A imersão apoiou os estudantes a desenvolverem pensamento crítico pautado em paradigmas que vislumbrem olhares integradores sobre meio ambiente, sociedade, economia, política, ética e valores humanos.

Expedição Tapajós

Além dos estudantes de graduação, outra edição da imersão no Vale do Ribeira foi ofertada a alunos estrangeiros, numa parceria do FGVces com o Mestrado Profissional em Gestão Internacional da FGV. Com objetivos semelhantes à disciplina ofertada para a graduação, essa experiência proporcionou aos estudantes de outras culturas um aprofundamento em um Brasil nem tão conhecido fora de nossas fronteiras. Assista ao vídeo e veja como foi.

No segundo semestre de 2018, um grupo de 29 estudantes participou da Expedição Tapajós, uma imersão em torno do rio Tapajós, no estado do Pará, onde coexistem várias Unidades de Conservação, comunidades tradicionais e operações empresariais de grande porte. Pode-se dizer que a região é uma representação de tantas outras realidades brasileiras e seus cenários complexos sobre desenvolvimento. Tudo isso em meio a uma floresta exuberante, que propicia um banho de rio entre uma conversa e outra e noites de sono na rede, enquanto se navega – o que também faz parte do processo de formação. Assista ao vídeo que apresenta um pouco da experiência:

Formação Integrada para líderes e gestores

A Linha de Sustentabilidade do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade, coordenada pelo FGVces, concluiu em 2018 o ciclo de sua primeira turma, ingressante em 2016. São 29 novos mestres e mestras, que defenderam seus trabalhos de pesquisa aplicados a desafios de gestão e desenvolvimento sustentável. Os trabalhos podem ser acessados aqui.

Assim como para a graduação, a Linha de Sustentabilidade busca desenhar e implementar modelos inovadores de formação, em que os mestrandos são protagonistas de sua aprendizagem a partir dos eixos centrais do Projeto Referência e do Projeto de Si Mesmo. O objetivo é que o processo resulte na formação de líderes, gestores e cidadãos mais preparados para lidar com a complexidade, buscando não as soluções rápidas para dilemas de sustentabilidade, mas as boas perguntas que levarão a tomada de decisão mais consciente.

Além de diversas disciplinas em temas relevantes que demandam um olhar integrado de gestores privados e públicos, como mudança do clima, desenvolvimento local, corrupção e cultura do consumo, para citar algumas, no mestrado há também uma disciplina dedicada à Formação Integrada, presente na grade curricular dos três semestres do curso. Diferentemente da graduação, em que os desafios são propostos pela equipe que conduz a disciplina, no mestrado os próprios alunos sugerem os temas em que desejam trabalhar. Por meio de um processo de diálogo sobre as propostas, os grupos se formam e elaboram seus desafios. As entregas podem ser feitas em diversos formatos, também escolhidos pelos alunos – já tivemos jogos, propostas de ferramentas de gestão, workshops, rodas de conversa, entre outros. Em 2018, as turmas 2 e 3 trabalharam nos seguintes projetos:

  • Articulação de redes para o uso sustentável de florestas nativas – caso Amazônia;
  • Desenvolvimento de ferramenta de análise/diagnóstico territorial – caso da região do MATOPIBA;
  • Articulação intersetorial para avaliação de impacto de investimento social privado;
  • Desenvolvimento de intervenção para educação alimentar em contextos de vulnerabilidade social;
  • Jogo voltado ao viés inconsciente de gênero nas organizações;
  • Mapeamento e ferramenta de cadastro de inovadores sociais na cidade de São Paulo;
  • Sensibilização de homens sobre as diversas formas de expressão de masculinidades nas corporações;
  • Promoção da cultura de pensamento de ciclo de vida, de forma a auxiliar processos de tomada de decisão corporativa;
  • Conceituação, mapeamento e guia de relacionamento com atores externos ao poder público;
  • Proposta de iniciativas que fortaleçam o senso de pertencimento em cooperativas de produtores rurais (a partir do caso CAMAT, cooperativa localizada em Salesópolis);
  • Criação de jogo que revele inconscientemente o nível de corrupção individual;
  • Proposição de canais de aproximação entre investidores e empresas B;
  • Avaliação de práticas adotadas por uma instituição de ensino a fim de identificar oportunidades de melhorias tomando como base conceitos de economia circular, com foco no tratamento de resíduos orgânicos.

Alguns dos projetos desenvolvidos em 2017 ganharam visibilidade fora da FGV, com apresentações na Virada Sustentável de São Paulo e em reunião da Rede Brasileira do Pacto Global, assim como premiação da FEBRABAN.

As turmas 2 e 3 também foram ver de perto desafios reais do desenvolvimento sustentável e do diálogo entre atores necessários para que a agenda avance, na disciplina Sustentabilidade em Campo. Para isso, visitaram o litoral do Paraná, que abriga o maior remanescente contínuo de Mata Atlântica, diversas comunidades tradicionais de pescadores e também o Porto de Paranaguá, um dos maiores do Brasil. Nessa imersão, os mestrandos são convidados a refletir sobre a complexidade das relações entre atores do território para uma gestão compartilhada do desenvolvimento.

Também como atividade do Mestrado Profissional, aberta à participação do público externo, realizamos em 2018 a terceira edição da Virada das Nações Unidas, uma simulação de negociação internacional inspirada nas conferências das Nações Unidas. Os participantes assumiram por 24 horas papéis de negociação – estados nacionais, setor privado e sociedade civil – nos temas Clima, Crescimento Econômico e Desigualdade e vivenciaram na prática a dificuldade de fechar acordos, conciliar posições e alcançar resultados satisfatórios para o desenvolvimento sustentável.

Como parte da simulação, a aula magna com o professor Oscar Vilhena, diretor da Escola de Direito de São Paulo da FGV (FGV Direito) e especialista em direito constitucional, direitos humanos e direito e desenvolvimento, tratou de direitos humanos e democracia. Na plenária de abertura, Haroldo Machado, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Denise Hills, superintendente de sustentabilidade e negócios inclusivos do Itaú Unibanco e diretora da Rede Brasil do Pacto Global, e Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, falaram dos papeis de cada tipo de organização em negociações internacionais e dos desafios atuais do multilateralismo.

Virada das Nações Unidas

Além do mestrado, em 2018 também teve início nova turma do Master em Administração e Sustentabilidade, programa de especialização lato sensu oferecido a profissionais em início de carreira e sem experiência na área. O curso, com duração de 18 meses, apresenta disciplinas básicas de gestão e debate introdutório em sustentabilidade. O objetivo é que, ao final do percurso, os alunos sejam capazes de levantar debates sobre sustentabilidade nas organizações em que atuam, buscando ferramentas que aprimorem a gestão.

Publicações

P22_ON – Blockchain socioambiental

Artigo científico sobre o desafio do FIS 14, desertos alimentares, foi aceito e publicado no periódico Journal of Public Affairs:

SANTIAGO, I. C.; CARREIRA, FERNANDA; AGUIAR, ANA CAROLINA; MONZONI, MARIO. (2017) Increasing knowledge of Food Deserts in Brazil: the contributions of an interactive and digital mosaic produced in the context of an Integrated Education for Sustainability Program. Journal of Public Affairs, v. 5, p. -, 2018. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/pa.1894