O Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV EAESP (FGVces) completou 15 anos em 2018. Nossa história se mistura com o percurso de algumas das principais agendas de sustentabilidade do Brasil nesse período. Desde 2003, nos propomos a ser um espaço aberto de estudo, aprendizado, reflexão, inovação e de produção de conhecimento. Para isso, contamos ao longo do tempo com a valiosa colaboração de pesquisadores e pesquisadoras de formação multidisciplinar, engajadas e comprometidas, e com genuína vontade de transformar a sociedade.

A partir desse marco, o coordenador-geral do FGVces, Mario Monzoni, traz uma reflexão sobre os avanços da agenda nos últimos anos e sobre o papel de um centro de pesquisa num contexto de mudanças aceleradas, que demandam urgência em tomadas de decisão mais alinhadas a um desenvolvimento que seja de fato sustentável.

Quais foram os principais desafios do FGVces nesses 15 anos?

Mario Monzoni – No começo, o FGVces herda um pouco o trabalho que eu e outros colegas já vínhamos fazendo no campo da sustentabilidade, que envolvia finanças e meio ambiente.

Nós tivemos a oportunidade de nos envolver com a Bovespa – nome da Bolsa de Valores de São Paulo à época – e com o IFC, braço privado do Grupo Banco Mundial, para começar a construir o ISE, e junto com o WRI (World Resources International) iniciar um programa de empreendedorismo que norteou os primeiros anos do Centro. Ao longo desses 15 anos, outras agendas apareceram e se consolidaram de maneira bastante significativa, inclusive marcando hoje o próprio perfil do FGVces.

Eu destacaria o tema de clima, em que conseguimos avançar bastante e influenciar tanto o setor empresarial quanto políticas públicas relacionadas aos desafios que a sociedade enfrenta com a mudança do clima. Atuamos dentro do contexto empresarial, que percebeu a necessidade de incorporar isso mesmo sem regulação, e subsidiando o Estado para possível tomada de decisão em regulação num futuro, que a gente espera que seja próximo, pra avançar definitivamente na questão de clima no Brasil.

Um desafio, não de conteúdo, mas de gestão, foi saber como gerir um centro de pesquisa que crescia, dobrava de tamanho a cada ano e que não parou de crescer. Isso se dá em termos de estrutura, de gestão de pessoas, e isso para nós, e para mim que tenho uma posição de olhar o todo no FGVces, foi um desafio grande, porque a hora que dávamos a equação para um problema, novos desafios já apareciam. É algo que demandou bastante esforço ao longo desses 15 anos.

Em que outras agendas o FGVces avançou e influenciou as práticas empresariais e políticas públicas nos últimos anos?

MM – Um tema que cresceu no FGVces e que não estava lá na sua origem é o de desenvolvimento local e territorial. Nós começamos a ser convocados para trabalhar no contexto amazônico, olhando para a chegada de grandes empreendimentos e como isso poderia ser feito de maneira responsável. Estamos vivendo e discutindo a possibilidade de uma nova era de grandes investimentos na Amazônia e é necessário que isso seja feito a partir das lições aprendidas. Muito trabalho foi realizado nesse campo e que inclusive nos permitiu estarmos hoje, mais uma vez, junto ao IFC, construindo diretrizes para a chegada de investimentos no território amazônico e, mais recentemente, em projeto que envolve construção de governança territorial na BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Atualmente estamos muito envolvidos também com a avaliação dos danos do desastre do Rio Doce, entre outros projetos.

Uma outra agenda em que atuamos e que ainda está para ser construída e ter escala no nível nacional e global é a questão dos serviços ecossistêmicos. A agenda nasce de um olhar particular no impacto sobre de equilíbrio climático, primeiramente com o objetivo de criar uma cultura de inventários corporativos de gases de efeito estufa, passando a apoiar as empresas a fazer gestão das suas emissões, culminando com o olhar sobre ciclo de vida de produtos e serviços. Essa experiência com emissões e pegada de carbono nos levou a olhar impactos, externalidades e dependências das empresas de outros serviços ecossistêmicos. Acredito que essa seja uma agenda de vanguarda, de fronteira, que nós vamos observar nos próximos anos.

Qual o papel de um Centro de Estudos dentro do ambiente universitário na formação para a sustentabilidade?

As novas gerações estão exigindo novas pedagogias e novas maneiras de se aprender, o que provoca uma crise de “ensinagem”. Então o FGVces procurou as grandes referências do que está sendo feito no mundo inteiro em educação para a sustentabilidade, não do ponto de vista de conteúdo, mas muito mais do ponto de vista pedagógico e metodológico, e trouxe isso para cá. Primeiro para a graduação, depois para o programa de mestrado. E, indo além, inclusive para a própria maneira do FGVces se relacionar com seus diferentes públicos, em especial com as empresas, por meio de metodologias mais inovadoras, e não trabalhando somente com a razão formal, mas com um jeito de fazer que busca levar as pessoas para o campo, para vestir os sapatos dos outros, que busca dialogar com a razão sensível – corpo, arte, enfim, trazendo novas pedagogias. No caso da FGV, que forma gestores para as empresas e para o governo, trazer inovação para o campo da formação para a sustentabilidade é fundamental para dar conta dos desafios que teremos no século XXI.

O que poderia ter avançado na agenda de sustentabilidade que você considera que ainda não alcançou estágios maduros em políticas públicas e em gestão empresarial?

Nós estamos ainda na borda da pizza diante dos desafios que a humanidade percebe pela frente, num futuro muito próximo. Sem dúvida, acredito que conseguimos dar uma volta na espiral em termos de conscientização de uma boa parte da sociedade, inclusive do setor empresarial, no âmbito multilateral, na Organização das Nações Unidas. Quanto ao governo, acredito que ficou um pouco para trás. A gente vê globalmente alguns governos nacionais e subnacionais com posturas bastante progressistas, mas na média não tem ainda no setor público e nas políticas de Estado respostas condizentes com o tamanho dos desafios que temos. E provavelmente essa demora vai fazer com que a gente tenha que ter saltos muito bruscos no futuro, porque a fatura vai aparecer.

Então houve avanços, mas isso se deu ainda muito no campo da comunicação empresarial e, quando a gente entra para ver a fundo, tem muita coisa para ser feita ainda.

O que seria necessário para o campo da sustentabilidade avançar de forma robusta?

Eu acredito que há um desafio em termos de comunicação. A sustentabilidade é muito sofisticada para ser explicada, embora ela seja muito simples, e eu acredito que esse campo não conseguiu ainda construir uma narrativa convincente. As respostas se dão nos três “C”: tem uma turma que tem a convicção de que algo precisa ser feito; tem a turma da conveniência; e tem a turma da catástrofe, que só reage depois que a catástrofe aconteceu e que é chamado para fazer alguma coisa.

Mais ainda, o corpo que dirige o país, e globalmente a gente pode dizer a mesma coisa, vem de uma formação em que o diálogo não é um valor, vem de uma formação que entende que a própria educação formal, sozinha, dá o direito de saber como as coisas são feitas. É preciso criar uma nova geração, uma nova maneira de formar as pessoas, valorizando soft skills, diálogo, a criação de equipes em que as decisões sejam mais horizontais, onde as questões globais sejam consideradas. É preciso uma nova geração chegar com poder de decisão para criar escala nessa mudança.

Quais são os principais desafios a serem enfrentados pela agenda de sustentabilidade?

Estamos vivendo desafios estruturais bastante sérios em termos de limites planetários. A humanidade, com seu modo de produção e consumo, já ultrapassou algumas faixas amarelas em áreas muito sérias, que colocam em questão a qualidade de vida que vamos ter aqui no planeta no futuro. Nós ainda estamos diante de problemas civilizatórios de relacionamento entre as pessoas dentro dos países e entre países que ainda não estão solucionados. Poderíamos ter alcançado um nível civilizatório muito superior ao que a gente tem hoje. Temos desafios enormes em relação à fome, nutrição, saneamento, energia, comunicação.

O número de pessoas excluídas de um mínimo de qualidade de vida é absurdo frente aos avanços tecnológicos e de conhecimento que a humanidade tem. Então as soluções estão presentes, mas politicamente não conseguimos nos organizar para enfrentar essas questões. Do ponto de vista estrutural, temos questões que envolvem direitos humanos, meio ambiente e qualidade de vida muito sérias para enfrentar.

E conjunturalmente, a gente passa por uma crise global ética, moral, de visão de mundo muito séria. É possível que em outros tempos isso também estivesse presente – a humanidade foi à guerra para resolver algumas delas –, mas hoje nós temos grupos com visões de mundo bastante questionáveis do ponto de vista de garantia de direitos, de respeito ao meio ambiente e de participação social, e com poder de decisão grande, em estados nacionais importantes. Tem uma visão de mundo conservadora, que não olha o todo, que não olha a questão ambiental, não olha a questão de garantia de direitos humanos mínimos e que alçou o poder e está colocando a sua agenda. De certa maneira, essa visão está dinamitando conquistas muito sérias feitas ao longo desses últimos 40 anos. Então é um desafio, do ponto de vista até de comunicação, narrativa, convencimento e de articulação política.

Acredito que a maioria das pessoas não pense assim, mas tem um choque de visão de mundo que foi explicitado frente a uma realidade também que a tecnologia traz, com as redes sociais, que a gente está começando a aprender – nem sei se vamos aprender – a trabalhar com isso. As variáveis são muitas para uma hegemonia de uma visão de mundo que olhe o meio ambiente como um sistema que vai dar as notas em cima de todos os outros sistemas.

Diante desse contexto, qual o papel de um centro de estudos em sustentabilidade?

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer a nossa insignificância: a gente é um ator dentro desse sistema, e espera estar remando para o lado certo junto com os outros. A nossa contribuição sempre vai ser muito pequena, mas a gente espera que seja positiva. Por estar dentro de uma Escola de Administração, nossa contribuição vai se dar sempre no campo da gestão, seja no âmbito das políticas públicas, seja no âmbito das práticas e estratégias empresariais. E sempre com o perfil de pesquisa aplicada, ou seja, indo para a ponta, para o campo, vendo quais são os problemas na realidade e procurando produzir e disseminar conhecimento para resolver problemas práticos.

Temos ainda o papel de formar uma nova geração que olhe para o todo e não tenha um pensamento individualista, que vai resolver o seu problema criando no âmbito coletivo uma grande tragédia. Uma geração que entenda que existe uma essência a ser buscada e não transforme os meios em fins em si mesmos.

Acredito que estamos posicionados para produzir conhecimento na vanguarda no campo da sustentabilidade, e não commodity de conhecimento, então buscamos sempre expandir as fronteiras, trazer os dilemas. Temos o papel ainda de reafirmar a visão que construímos aqui no FGVces, de ser um espaço onde os atores do sistema podem ser convocados para construir conjuntamente as soluções e tensionar propositivamente os tomadores de decisão, em políticas públicas e nas empresas, dentro de um norte de uma visão de mundo que garanta direitos e olhe o meio ambiente como algo absolutamente relevante para tudo o que queremos em termos de qualidade de vida.

Fazendo um exercício de reflexão: quando o FGVces tiver 30 anos, quais terão sido os avanços de hoje até lá?

Sem querer fazer muito alarde, mas já fazendo, eu entendo que os próximos 15 anos vão ser de grandes definições. É possível que eventos extremos com grande intensidade batam à nossa porta e nos chamem para saber o que queremos como humanidade. Assim como um passivo gigantesco em termos civilizatórios, de direitos mínimos básicos de qualidade de vida, estão para ser resolvidos. Então a história está nos chamando para decisões muito importantes nesses próximos 15 anos, que podem nos levar, se não olhadas de maneira adequada, para um mundo Mad Max – uma utopia negativa – ou vamos dar uma nova volta na espiral e uma massa crítica de pessoas responsáveis vai assumir a direção na condução para o enfrentamento desses desafios que temos pela frente.

Jogar as externalidades para a sociedade pagar fez com que, do ponto de vista de produção, de consumo e mesmo de investimento, criássemos setores e economias absolutamente fictícios, que não fazem sentido do ponto de vista de preços relativos. Temos que internalizar essas externalidades para que investimento e consumo se deem no âmbito de outra relatividade de preços para uma nova economia, que incorpore as insustentabilidades dos produtos nos processos de tomada de decisão. Tecnologia e rede social serão uma variável importante sobre tudo isso: podemos usá-las para o bem ou fazer as coisas mais difíceis ainda.